A propósito do encontro de escritores Literatura em Viagem, a decorrer até ao dia 20, releio algumas passagens de John Steinbeck contidas no volume Viagens com o Charley (Edição Livros do Brasil, Tradução de Sousa Vitorino), em que o mesmo viaja pelos Estados Unidos na companhia do seu cão Charley.
«Havia uma tabuleta em Sauk Center: Lugar de nascimento de Sinclar Lewis.
Por qualquer razão passei por lá rapidamente e virei para norte, pela estrada 71, para Wadena. Escureceu e arrastei-me pesadamente para Detroit Lakes. Via um rosto à minha frente, um rosto magro e engelhado como uma maçã na barrica por demasiado tempo, um rosto solitário e doente de solidão.
Não o conheci bem, nunca o conheci nos dias tumultuosos em que lhe chamavam Red. Para o fim da sua vida visitou-me várias vezes em Nova Iorque e almoçámos no Algonquin. Tratava-o por Sr. Lewis: ainda o faço em espírito. Já não bebia e não tinha prazer com o que comia, mas de vez em quando os seus olhos faiscavam como o aço.
Lera Rua Principal quando ainda andava no liceu, e lembro-me do ódio violento que levantou na região do seu nascimento.
Voltou?
Apenas passou por lá uma vez ou outra. O único escritor bom era um escritor morto. Então já não poderia surpreender ninguém nunca mais, já não poderia ferir ninguém nunca mais. E na última vez que o vi parecia ter engelhado ainda mais.
Disse-me: Tenho frio. Parece que tenho sempre frio. Vou para a Itália.
E foi. Morreu lá, e não sei se é verdade ou não, mas ouvi dizer que morreu só. E agora é bom para a cidade. Leva lá alguns turistas.»
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