Miguel Torga – O Sr. Ventura
Para um escritor que elegeu Trás-os-Montes como a sua pátria literária, a escolha do Alentejo para berço do herói de “O Senhor Ventura” (1943) poderá causar alguma estranheza. Contudo, Torga não se detém muito sobre as paisagens alentejanas, preferindo divagações sobre a China, que visitou já perto dos 80 anos. Há, no entanto, referências à planície alentejana. Que complementam o cariz trágico da personagem e que apontam para traços dominantes na obra de Torga, nomeadamente a paisagem nua, árida e agreste que o escritor reproduz na sua poesia e personagens.
É a resistência quase inabalável dessa paisagem que emerge no herói de “O Senhor Ventura”, novela remetida ao silêncio depois de 1943 e recuperada pelo escritor mais de quatro décadas depois, em 1985. Torga sabia que a narrativa distanciava-se do seu universo bibliográfico. Escrevera-a sob um ímpeto juvenil, admitiu mais tarde, libertando o espartilho da imaginação. A fantasia, porém, haveria de dar lugar ao embaraço.
A releitura e o confronto com a espontaneidade viril dos 30 anos levou-o a repudiar o livro. Durante muitos anos foi editor das suas obras. Por isso, nada o impedia de lançar para a sombra uma ficção nascida do “atrevimento”. No “Diário XII” escreve: “Não há uniformidade de critério possível perante a surpreendente e paradoxal diversidade da vida”. Poder-se-á associar o pensamento ao trajecto errante do herói de “O Senhor Ventura”, mas a frase justifica também a rendição de Torga à ousadia do livro. Já perto dos 80 anos, o escritor-médico relê a aventura e, compreensivo, descobre com ternura a história de um andarilho português por terras do Oriente.
Decide-se por uma 2.ª edição, em 1985, mas não deixa de esclarecer e justificar o “devaneio” dos seus 36 anos no prefácio. “No presente, é mais que certo que não conceberia a narrativa tão linear e apressada. Procuraria ao menos que fosse mais entrosada psicologicamente, mais lógica, menos sumária e arbitrária”, escreve. Porém, admite, tal “presunção” teria também o seu preço: “Talvez que assim não conseguisse tão espontânea e liberalmente dar largas à imaginação. Que, valha a verdade, é a única ponta por onde se lhe pode pegar”. Torga apresenta “O Senhor Ventura” como uma obra com contornos pontuais, distante do apego à terra e das exaltações telúricas de narrativas anteriores, “A Criação do Mundo – Quatro Dias” (1937-1939), “Bichos” (1940) e “Contos da Montanha” (1941). Numa escrita transparente, “O Senhor Ventura” revela um outro Miguel Torga. Mais ousado e fantasista.





























