Sobre Fernando Pessoa
Quando voltava para casa, à noite, com a pasta debaixo do braço, entrava na leitaria da esquina da sua rua, no «Trindade», o seu amigo Trindade, rechonchudo e bom rapaz, que lhe vendia fiado (quando recebeu o prémio literário parte dele foi para o Trindade e quando morreu lá devia ainda seiscentos mil reis) e, nas pontas dos pés, com o seu ar cada vez mais dependurado, as calças a fugirem-lhe pelas pernas acima, pigarreando, enigmaticamente dizia:
«– 2, 8 e 6.»
O Trindade retirava-se. E daí a pouco poisava em cima do mármore do balcão uma caixa de fósforos, um maço de cigarros e um cálice de Macieira. Nesse tempo uma caixa de fósforos custava 20 centavos, um maço de cigarros 80 e um Macieira 60, ou seja 2, 8 e 6 tostões. O poeta recolhia os fósforos, rasgava o maço de cigarros e virava, de um trago, o cálice de Macieira. Depois abria a pasta, retirava dela uma garrafinha preta, e punha-a em cima do balcão. O Trindade, discretamente, pegava nela, levava-a dentro e voltava daí a pouco com ela rolhada já. Fernando Pessoa tornava a guardá-la na pasta de cabedal e, sem pagar, saía porta fora, depois de se despedir cordialmente do amigo Trindade.
João Gaspar Simões
Vida e Obra de Fernando Pessoa
(Bertrand, 1980)





























