
Enquanto leio A Conspiração Dos Antepassados, dou uma volta pela página do autor e fico a saber que vai ser lançado para as livrarias o novo romance intitulado O Evangelho do Enforcado. O novo livro de David Soares tem a chancela da Saída de Emergência e sairá para as livrarias a 12 de Fevereiro. Em jeito de aperitivo aqui fica uma breve passagem da obra!
«Os viajantes cheiravam Lisboa, antes de lhe pôr a vista em cima: os quatro ventos sopravam para Sintra e Sacavém os cheiros provenientes dos açougues, oficinas de calafates, baiucas dos curtidores e lixeiras que se espraiavam à sombreada do muramento da cidade; as gentes expulsavam das chaminés e janelas abertas das casas um florilégio de fragrâncias, das melíferas, como os eflúvios das enxercas, refogadas com ervas e mel, às malcheirosas, como os pivetes deitados fora com o conteúdo dos penicos. Não era invulgar o vento bater na cara dos transeuntes e enfiar-lhes o cheiro a vinho e caca de porco pelas narinas acima. Um fabuloso odor de “aqui e agora” que ia buscar essências pretéritas, fixadoras dos aromas do presente, para controlar os pensamentos dos lisboetas: o hipocentro da geologia temporal de Lisboa, impressa nas rochas, tijolos e ossos, reverberava sob a forma de lenga-lengas, cantigas estúpidas e orações de esperança. Ninguém, nem sequer um fungo, se dava ao trabalho de aprender alguma coisa com a presença do passado: e a cidade, de quando em quando, dava coices; deitava umas casas abaixo e reorganizava-se – ninguém me usa, clamava, merismática.
Casas de pedra e madeira erguiam-se voltadas para o rio Tejo, tão tortas quanto as próprias elevações sobre as quais se equilibravam; em direcção à linha da água, a pouquíssima distância das muralhas coroadas de líquenes, as ruas estreitas tornavam-se exíguas e a imundície sedimentava-se em estratos graúdos que encapotavam o chão de terra batida. Algumas artérias de maiores dimensões, como a eritematosa Rua Nova, possuíam pavimentos; mesmo assim, se apresentassem uma cota mais elevada, os caminhos calcetados costumavam ser cobertos com areia para que as ferraduras das bestiúnculas não deslizassem nas lajes de pedra».