Pedro Silva Comemora Dez Anos Como Autor

Pedro Silva comemora neste ano de 2010 uma década como autor. Para assinalar o facto, o autor cedeu ao biblioteca imaginária um conto inédito propositadamente escrito para comemorar os dez anos de carreira literária.

Pedro Silva é autor de uma vasta obra publicada não só em Portugal mas tambem no Brasil, Espanha ou Chile. Seguem alguns titulos da sua vasta obra.

“Ordem do Templo: Em Nome da Fé Cristã” (Ulmeiro, Portugal, 2000) Ensaio – “História e Mistérios dos Templários” 2ª Edição Esgotada (Ediouro, Brasil, 2001) Ensaio – “Ku Klux Klan: Pesadelo Branco” (Magno Edições, Portugal, 2003) Ensaio – “Tripla Imparável I: Juventude em Acção” (Magno Edições, Portugal, 2005) Ficção Juvenil – “Templários em Portugal (a verdadeira história)” (Dinalivro/Ícone Editora, Portugal, 2005) Ensaio – “A Lança Sagrada de Hitler” (Universo dos Livros, Brasil, 2008) Ensaio – “O Código da Maçonaria” (Universo dos Livros, Brasil, 2007) Ensaio – “O Nascimento do Reino de Portugal” (Edições Chimpanzé Intelectual, Portugal, 2007) Ilustrações: Filipa Canhestro / Ficção Infantil – “Romance na Net” (Idea Editora, Brasil, 2006) co-autor: Eliete Madureira / Ficção.

Para além disso, o escritor, tem-se dedicado igualmente a colaborar com diversos jornais portugueses, assim como revistas de História em Portugal e Brasil, tais como “História Viva”, “Desvendando a História” ou “Aventuras na História”.

Uma Viagem na época dos Descobrimentos

 Um sonho de criança

- Bartolomeu! Bartolomeu! – grita uma donzela formosa, com pouco mais de trinta anos.

Por todo o lado procurava, mas o seu filho não aparecia em sítio algum.

De repente, um franzino jovem surge. Tinha um olhar simpático. O cabelo despenteado. Mas a sua maneira de ser era delicada:

- Desculpe, mãe. Estava a brincar no riacho.

- Outra vez, Bartolomeu? Mas tu só te sentes bem junto à água?

O jovem, envergonhado, encolhe os ombros e responde:

- Por acaso… sim! – e corre a abraçar a sua mãe.

Estávamos em 1465 e Bartolomeu Dias, nascido em Mirandela, uma belíssima localidade transmontana, dava os primeiros passos na sua futura vida de navegador. Apesar de ter apenas quinze anos, já o seu pai o incentivava a seguir as pisadas de Dinis Dias, seu parente e também famoso navegador.

Mas o nosso Bartolomeu iria ser ainda mais famoso. Porém, nesta altura, ainda o não sabia.

Ao jantar, o seu pai, conhecedor por ser de poucos sorrisos e de poucas falas, dirigiu-se ao filho:

- Bartolomeu, tua mãe contou-me que passaste o dia junto ao riacho. É verdade?

- Sim, pai, é verdade. Perdoe-me. – e o jovem baixou a cabeça, em tom triste.

- Sabes que a vida não é só brincadeira, não sabes?

- Eu sei, meu pai, mas…

- E olha que a nossa vida tem sido de trabalho. Os sonhos são apenas para quando dormimos. A realidade é bem diferente quando estamos acordados. – afirmou o pai de Bartolomeu Dias.

- Desculpe, pai. Mas isto não é um sonho, eu serei mesmo navegador!

O pai não deixou de esboçar um pequeno sorriso. O empenho do seu filho era de louvar. Dentro do seu coração, o pai de Bartolomeu desejava que este conseguisse ser o mais famoso dos navegadores portugueses. Mas também sabia as dificuldades que o filho teria de enfrentar. “Porém, sonhar não custa”, pensava de si para si.

 

Vivendo um sonho

Pouco anos depois, Bartolomeu Dias despediu-se dos pais e rumou a Sul. O destino era a capital de Portugal, Lisboa. Era lá que todos os sonhos seriam possíveis de conquistar. Até então, passara os seus dias numa pequena povoação do interior do país. Nunca vira o mar, mas sonhara com ele todos os dias de sua vida.

Deslocou-se para Lisboa. Ali estudaria matemática e astronomia na Universidade de Lisboa. Mas, ainda antes de começar a estudar, a primeira atitude que teve ao chegar à capital foi deslocar-se à zona de Belém. A razão? Queria ver o local de onde as caravelas partiam rumo ao desconhecido.

“Que local magnífico!”, pensava Bartolomeu, olhando para tanta agitação. Eram marinheiros que se despediam das suas famílias. Eram vendedores que apregoavam os seus produtos. E, por fim, eram crianças que choravam de saudades ao ver a chegada dos seus pais ou que brincavam indiferentes a tudo o mais.

Com tudo isto sonhara o jovem Bartolomeu Dias quando, pouco tempo antes, partira de Mirandela rumo a Lisboa. Na viagem não parara de fazer perguntas a Dinis Dias, o seu parente que ganhara alguma fama ao comando de caravelas. Queria saber tudo: como se preparava uma expedição; quantos marinheiros levava a embarcação; e, mais importante, quando ele poderia participar. A tudo respondia Dinis com a sua calma de sempre. À última pergunta, respondeu-lhe: “na altura certa, chegará o teu momento de embarcar”.

Os estudos passaram a correr. Tudo aprendia a um ritmo louco tal a ânsia de largar terra firme e aventurar-se no alto mar.

Quanto os estudos terminaram, e auxiliado pelo seu familiar Dinis Dias, entrou na corte portuguesa. À sua frente estava D. João II. Assim que o viu, Bartolomeu ajoelhou-se. Era o seu rei que ali se encontrava. Portanto, mandava a educação que lhe fizesse uma vénia.

- Levantai-te. – afirmou o soberano.

- Obrigado, senhor. É uma honra poder estar aqui na tua presença. – disse Bartolomeu.

- O que quereis de mim? – perguntou D. João II, o Príncipe Perfeito.

- Senhor, eu gostaria… – a voz parecia não sair, dada a sua timidez. – Eu gostaria de poder participar na próxima viagem a África.

O rei pensou um pouco e respondeu:

- Pois bem, embarcarás daqui a dois dias, rumo a São Jorge da Mina, a nossa mais importante feitoria.

E assim foi.

Cruzando mares pela primeira vez chegou em 1484 ao local estipulado pelo rei. Ali esteve algum tempo, aperfeiçoando os seus conhecimentos marítimos e aprendendo os costumes locais.

 

A viagem de uma vida

Tão rapidamente ganhou experiência que, dois anos depois, o rei João II confiou-lhe uma importante missão: descobrir o Preste João das Índias. Desde há alguns anos que em Portugal se contava a história da existência de um rei muito rico que vivia na Etiópia. Esse rei, ao contrário dos reis que o rodeavam, era cristão. Portanto, poderia ajudar D. João II na conquista de novos territórios na África e na Ásia.

No entanto, este era o plano secreto.

Oficialmente, Bartolomeu Dias tinha como missão investigar as costas do continente africano. Isto para se tentar perceber se seria possível chegar à Índia por mar.

Nessa altura, em 1486, ninguém acreditava que fosse possível ultrapassar a zona conhecida por Cabo das Tormentas. Este nome havia sido ganho pelo facto de o mar ser muito perigoso e de muitos barcos ali terem desaparecido.

Mas Bartolomeu Dias não tinha medo de nada. Se o rei lhe havia solicitado essa missão, assim seria cumprida.

Na verdade, o navegador, que comandava duas caravelas, não chegou a encontrar qualquer notícia do mítico rei das Índias, o famoso Preste João. Porém, trazia relatos muito entusiasmantes para D. João II.

Chegado à corte, Bartolomeu correu para junto do seu rei e declarou:

- Senhor, é possível dobrar o Cabo das Tormentas. Eu sei!

- Mas como tal será possível, Bartolomeu? – perguntou o monarca.

- Acreditai em mim.

Perante tamanha demonstração de optimismo, o rei decidiu, uma vez mais, confiar no seu navegador. Apesar de todos os projectos concretizados pelos portugueses, a cada momento sentia-se a necessidade de ir um pouco mais além. E, neste momento, dobrar o Cabo das Tormentas era o maior desafio da nação. O rei sabia-o, tal como Bartolomeu Dias.

O dia da partida foi igual a tantos outros naquela zona de Belém do século XV. Muita tristeza misturada com enorme dose de esperança.

Se, por um lado, já se chorava de saudades do que estava para vir, por outro, havia sorrisos de expectativa em regressarem como heróis. Apenas Bartolomeu Dias se mantinha sereno. As histórias do passado não o atemorizavam. Os muitos barcos e vidas perdidos algures no Cabo das Tormentas, onde um gigante Adamastor afundaria as naus, não intimidavam o nosso Bartolomeu Dias. Ele tinha, do seu lado, a força da experiência e o poder fornecido pela crença nas suas capacidades. Estudara a geografia marítima do local durante alguns anos. Preparara-se enquanto comandante e enquanto marinheiro. Faltava, apenas, concretizar o seu sonho: tornar-se famoso honrando a bandeira de Portugal.

O mês de Agosto de 1487 marcou a partida de Lisboa. O dia estava solarengo. As almas dos marinheiros estavam iluminadas, quiçá do sol ou da esperança de um fruto radioso. Em Dezembro, alguns meses após a partida, chegavam à Namíbia. Era o ponto mais a sul que havia sido registado pelos portugueses. A partir daí, apenas o desconhecido imperava.

É então que o tempo deixa de ajudar. Uma violenta tempestade abate-se sobre a expedição marítima. Bartolomeu Dias manteve-se calmo, apesar do temor da sua tripulação. Voltava a pairar o medo de um acidente fatal. Durante treze dias andaram à deriva, procurando a costa, mas não a encontrando. Na verdade, ainda que não o soubessem, andavam bem perto. Passado algum tempo, aproveitando o vento favorável, navegou para nordeste. Sem saber, tinha concretizado um feito histórico, dobrar o Cabo das Tormentas. Porém, apenas viria a aperceber-se do que fizera na viagem de regresso. Ao regresso fora obrigado pela tripulação que, supersticiosa, temia pelo súbito aparecimento do mítico Adamastor. Mas nada disso aconteceu e quando perceberam que haviam cruzado o ponto mais complicado de África, todos se sentiram muito felizes. Lançaram os braços ao Céu, em jeito de agradecimento e alívio da tensão acumulada.

Ao regressarem a Lisboa foram acolhidos como heróis. O rei veio recebê-los pessoalmente e dar-lhes outra boa novidade: a partir daí, em homenagem aos bravos marinheiros, o Cabo chamar-se-ia da Boa Esperança, pois permitiria chegar à Índia por mar.

- Obrigado Bartolomeu. – disse o rei, olhando para o navegador entretanto regressado do alto mar.

- Senhor, apenas cumpri o meu dever.

Tanta humildade encerrava no seu coração.

E tanta vontade de servir o seu país. Assim como de estar junto à água, tal como quando era criança.

Pouco depois, partiu na expedição de Vasco da Gama, que viria a tornar real o Caminho Marítimo para a Índia.

E, em 1500, fez igualmente parte da missão de descoberta do Brasil, liderada por Pedro Álvares Cabral.

Tudo o que se seguiu ao feito principal, ou seja, o agora chamado Cabo da Boa Esperança, foi, para Bartolomeu Dias, apenas um justo acréscimo ao seu currículo de navegador.

Bartolomeu Dias foi a Boa Esperança que necessitávamos para tornar Portugal um importante país de comércio e de navegação marítima. Sem ele, provavelmente, não haveria, hoje em dia, tanto interesse na História dos Descobrimentos Portugueses…

Autor: Pedro Silva

Contacto: ps77@aeiou.pt

Published in: on Abril 12, 2010 at 7:00  Comentários (4)  
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Coisas de Miudos II – A Bicicleta

«A coisa até que correu bem nos primeiros dez ou quinze metros. O veículo funcionava e estava a ganhar uma boa velocidade na descida. Atrás de si ouvia os gritos dos outros miúdos que vinham a correr na descida, não tinham qualquer hipótese de o apanhar, ele já ia a mais de cem à hora.
Foi então que se lembrou de um pormenor. Tinha-se esquecido de perguntar ao Caixa de Óculos como é que parava quando chegasse lá em baixo. O veículo não tinha nada que se parecesse com um travão. Foi nessa altura que a roda da frente bateu num buraco e começou a derrapar para a esquerda. Vendo o precipício ali tão perto, tentou desesperadamente torcer a direcção para a direita. Quanto mais torcia para a direita, mais o veículo teimava em ir para a esquerda. Subitamente viu a roda da frente sair e avançar a rodar sozinha pela encosta.
Iniciou então um fantástico voo por cima do silvado e do canavial. Avistou o Tio Miguel lá em baixo e disse-lhe adeus, depois de repente as canas começaram a aproximar-se perigosamente e quando abriu os olhos tinha o Tio Miguel debruçado sobre ele a perguntar se estava bem. Disse-lhe que tivera uma sorte danada em aterrar em cima das canas que ele acabara de cortar. Tinham sido as canas a amortecer a queda.
Todos os outros miúdos tinham desaparecido de repente, parece que qualquer misteriosa urgência os chamara para outra parte qualquer, e o Caixa de Óculos estava ocupado a recolher as peças do veículo (parece que a roda da frente tinha ido parar a mais de cem metros).»
Excerto do conto (A Bicicleta) de António Góis

Published in: on Fevereiro 21, 2010 at 8:01  Deixe um Comentário  
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Coisas de Miudos – A Tourada

«Uma vez chegados junto da cerca de arame farpado, quedaram-se a observar o boi que pastava com o ar mais calmo deste mundo. Era um animal castanho, enorme e assustador mesmo com o seu ar mais calmo. Todos ali conheciam a fama do animal, quando enfurecido levava tudo à frente e nem o dono escapara a umas valentes marradas no ano anterior.
    Encostados à cerca, iam observando e tecendo considerações.
   – Não parece muito mau – observou o Pilha Galinhas.
   – Dizem que quando eles estão assim ainda são piores – o Tóino da eira franzia o nariz.
   – Aqui há uns tempos pregou umas marradas tão valentes no meu pai que ele ainda hoje se queixa – observou o Zé Pedro.
   – E então, quem é que vai primeiro? – O caixa de óculos lançava achas na fogueira.
   – Cá por mim… – O Lanzudo encolheu os ombros.
   – Se quiseres podes ir primeiro. – O Zé Manél meteu as mãos nos bolsos enquanto olhava para o céu.
   – Alguém tem de ir primeiro – o caixa de óculos voltava à carga.
   – Não me digam que perderam a coragem? – O pilha galinhas ajudava à festa.
   – Ele cá não – ripostou o Lanzudo.
   – Estou aqui para o que der e vier – o Zé Manél tirou as mãos dos bolsos e cruzou os braços sobre o peito.
   – Já sei – o caixa de óculos começou a revistar os bolsos – atira-se uma moeda ao ar, um escolhe cara, o outro coroa, o que ganhar vai primeiro.
   – Cá por mim… – O Lanzudo cuspiu para o lado.
   – Pode ser – respondeu o Zé Manél encolhendo os ombros.
    O caixa de óculos continuou a revistar os bolsos por mais alguns instantes e acabou por encontrar uma moeda de cinco tostões. Aproximou-se dos dois e estendeu a moeda.
   – Eu sou o mais velho – lembrou o Lanzudo – por isso escolho primeiro.
   – Escolhes cara ou coroa? – O caixa de óculos ia mostrando ora um, ora o outro lado da moeda.
    O Lanzudo pegou na moeda e depois de a observar por alguns momentos, decidiu-se pela coroa o que deixava a cara para o Zé Manél. Antes que fosse feito o sorteio, este pegou também na moeda e observou-a atentamente. Acabou por a devolver ao caixa de óculos enquanto dizia…
   – Ná… Eu com esta moeda não jogo! Está toda gasta e alem disso está torta. Ná, não pode ser.
    Gerou-se de imediato a discussão, se a moeda estava torta ou não, se era ou não válida, toda a gente dava a sua opinião, o Lanzudo lá ia dizendo que eram tudo desculpas, que o Zé Manél não tinha mas era coragem, este que sim senhor, que tinha muito mais coragem que ele, mas que só aceitava jogar com uma moeda em condições. Entretanto todos revistavam os bolsos, e moedas não apareciam nem mais uma. O impasse ameaçava prolongar-se por tempo indefinido quando o Pilha Galinhas como que por artes mágicas, surgiu com outra moeda de cinco tostões, o que levou a outra discussão com o Tóino da eira porque o outro lhe ficara a dever cinco tostões havia um monte de tempo e dizia sempre que não tinha para lhe pagar. Serenados os ânimos, e feita a promessa que mal acabasse o sorteio a moeda revertia a favor do Tóino, preparou-se o Caixa de óculos que de todos era o mais novo para atirar a moeda ao ar.»

excerto do conto «A Tourada» de António Góis

Published in: on Fevereiro 17, 2010 at 18:14  Comentários (2)  
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Dois Tiros Na Noite

   Estranharia quem o visse por ali aquelas horas de passo apressado e sobrolho carregado. Se não se lhe adivinhavam os pensamentos, deduzia-se pela cara que não seriam dos mais agradáveis. Para os lados do pôr-do-sol já se ia perdendo na distância a Aldeia, a própria eira começava já a ficar para trás, no entanto os seus passos longos continuavam a esmagar torrões e restolho como se disso dependesse a sua própria vida. O rosto magro e queimado de muitos sois, sulcado de rugas que a barba de uns quantos dias já começava a esconder, era uma inesgotável fonte de suor, muito embora ele frequentemente o limpasse com a mão. Por breves instantes as compridas pernas pararam de mover-se e os olhos castanhos que denotavam determinação à mistura com uma certa tristeza, olharam o horizonte à sua frente. O restolho continuava ainda por uma centena de metros e a partir dali acabava o terreno limpo e começava o montado que se estendia por quase uma légua até à Herdade Grande. Ajeitou a bandoleira da espingarda que transportava no ombro e com um suspiro recomeçou a caminhar agora em direcção ao montado. Ignorou a estrada de terra batida que serpenteava pelo montado dentro, e embrenhou-se no arvoredo num local onde não havia qualquer caminho. Tão absorto ia nos seus pensamentos que nem deu pelo pastor que ali a cinquenta metros o observava com estranheza.
Os últimos raios de sol atingiam ainda as copas das árvores, a noite caía devagar…

excerto do conto «Dois tiros na noite» de António Góis

Published in: on Fevereiro 10, 2010 at 8:32  Deixe um Comentário  
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Balada Para um Rio Imaginário

   O João Raminhos prometeu e cumpriu! Victor, quando eu tiver as coisas organizadas chamo-te também para Lisboa, que não era Lisboa mas sim Laranjeiro, na altura era tudo igual e um emprego na Lisnave não era para qualquer um.
  – É verdade rapaz, isto aqui não é futuro pra ninguém, – tema de conversa com o Tio Manél dos Remédios sentados os dois na margem do rio à sombra do freixeiro grande, enquanto as tainhas vão saltando no pego.
  – Isto agora até o rio está diferente, – ia dizendo sempre de olhar fixo na água, – a malta nova o melhor que tem a fazer é procurar vida noutro lado.
  O Tio Manél sentado numa lata de tinta velha sobre a qual depositara um pedaço de cortiça, eu no chão, era capaz de ficar ali horas a ouvi-lo, o sonho a tomar forma na minha cabeça, às vezes ele falava do Alentejo de há muitos anos atrás, outra vezes da época actual onde as pessoas estavam cada vez mais a voltar as costas, não são só as pessoas que precisam da terra, explicava, a terra também precisa das pessoas, no dia em que toda a gente a abandonar, encolhia os ombros, não quero tár cá para ver. O Tio Manél não era filósofo, nem profeta nem nada, nem tão pouco sabia ler ou escrever, simplesmente vivera toda a sua vida no Alentejo e sabia compreendê-lo e falar dele como poucos. Despertava de quando em vez das memórias que o transportavam para outro tempo e aconselhava-me.
  – Se calhar Victor, o melhor que tens a fazer é aceitar a oferta do João Raminhos e saíres daqui.
  Punha-se o sol por detrás do arvoredo quando nos despedia-mos, partia ele a caminho do monte, ali a quinhentos metros, caminhava eu devagar e pensativo rio acima a caminho da Aldeia, o sonho era mais bonito noutras paragens.
  – Mãe, se calhar quando o João Raminhos cá vier vou dizer-lhe que sempre quero ir.

excerto do conto «Balada para um rio imaginário» de António Góis

Published in: on Janeiro 30, 2010 at 1:22  Deixe um Comentário  
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