Coisas de Miudos II – A Bicicleta

«A coisa até que correu bem nos primeiros dez ou quinze metros. O veículo funcionava e estava a ganhar uma boa velocidade na descida. Atrás de si ouvia os gritos dos outros miúdos que vinham a correr na descida, não tinham qualquer hipótese de o apanhar, ele já ia a mais de cem à hora.
Foi então que se lembrou de um pormenor. Tinha-se esquecido de perguntar ao Caixa de Óculos como é que parava quando chegasse lá em baixo. O veículo não tinha nada que se parecesse com um travão. Foi nessa altura que a roda da frente bateu num buraco e começou a derrapar para a esquerda. Vendo o precipício ali tão perto, tentou desesperadamente torcer a direcção para a direita. Quanto mais torcia para a direita, mais o veículo teimava em ir para a esquerda. Subitamente viu a roda da frente sair e avançar a rodar sozinha pela encosta.
Iniciou então um fantástico voo por cima do silvado e do canavial. Avistou o Tio Miguel lá em baixo e disse-lhe adeus, depois de repente as canas começaram a aproximar-se perigosamente e quando abriu os olhos tinha o Tio Miguel debruçado sobre ele a perguntar se estava bem. Disse-lhe que tivera uma sorte danada em aterrar em cima das canas que ele acabara de cortar. Tinham sido as canas a amortecer a queda.
Todos os outros miúdos tinham desaparecido de repente, parece que qualquer misteriosa urgência os chamara para outra parte qualquer, e o Caixa de Óculos estava ocupado a recolher as peças do veículo (parece que a roda da frente tinha ido parar a mais de cem metros).»
Excerto do conto (A Bicicleta) de António Góis

Published in: on Fevereiro 21, 2010 at 8:01  Deixe um Comentário  
Tags: , ,

Coisas de Miudos – A Tourada

«Uma vez chegados junto da cerca de arame farpado, quedaram-se a observar o boi que pastava com o ar mais calmo deste mundo. Era um animal castanho, enorme e assustador mesmo com o seu ar mais calmo. Todos ali conheciam a fama do animal, quando enfurecido levava tudo à frente e nem o dono escapara a umas valentes marradas no ano anterior.
    Encostados à cerca, iam observando e tecendo considerações.
   – Não parece muito mau – observou o Pilha Galinhas.
   – Dizem que quando eles estão assim ainda são piores – o Tóino da eira franzia o nariz.
   – Aqui há uns tempos pregou umas marradas tão valentes no meu pai que ele ainda hoje se queixa – observou o Zé Pedro.
   – E então, quem é que vai primeiro? – O caixa de óculos lançava achas na fogueira.
   – Cá por mim… – O Lanzudo encolheu os ombros.
   – Se quiseres podes ir primeiro. – O Zé Manél meteu as mãos nos bolsos enquanto olhava para o céu.
   – Alguém tem de ir primeiro – o caixa de óculos voltava à carga.
   – Não me digam que perderam a coragem? – O pilha galinhas ajudava à festa.
   – Ele cá não – ripostou o Lanzudo.
   – Estou aqui para o que der e vier – o Zé Manél tirou as mãos dos bolsos e cruzou os braços sobre o peito.
   – Já sei – o caixa de óculos começou a revistar os bolsos – atira-se uma moeda ao ar, um escolhe cara, o outro coroa, o que ganhar vai primeiro.
   – Cá por mim… – O Lanzudo cuspiu para o lado.
   – Pode ser – respondeu o Zé Manél encolhendo os ombros.
    O caixa de óculos continuou a revistar os bolsos por mais alguns instantes e acabou por encontrar uma moeda de cinco tostões. Aproximou-se dos dois e estendeu a moeda.
   – Eu sou o mais velho – lembrou o Lanzudo – por isso escolho primeiro.
   – Escolhes cara ou coroa? – O caixa de óculos ia mostrando ora um, ora o outro lado da moeda.
    O Lanzudo pegou na moeda e depois de a observar por alguns momentos, decidiu-se pela coroa o que deixava a cara para o Zé Manél. Antes que fosse feito o sorteio, este pegou também na moeda e observou-a atentamente. Acabou por a devolver ao caixa de óculos enquanto dizia…
   – Ná… Eu com esta moeda não jogo! Está toda gasta e alem disso está torta. Ná, não pode ser.
    Gerou-se de imediato a discussão, se a moeda estava torta ou não, se era ou não válida, toda a gente dava a sua opinião, o Lanzudo lá ia dizendo que eram tudo desculpas, que o Zé Manél não tinha mas era coragem, este que sim senhor, que tinha muito mais coragem que ele, mas que só aceitava jogar com uma moeda em condições. Entretanto todos revistavam os bolsos, e moedas não apareciam nem mais uma. O impasse ameaçava prolongar-se por tempo indefinido quando o Pilha Galinhas como que por artes mágicas, surgiu com outra moeda de cinco tostões, o que levou a outra discussão com o Tóino da eira porque o outro lhe ficara a dever cinco tostões havia um monte de tempo e dizia sempre que não tinha para lhe pagar. Serenados os ânimos, e feita a promessa que mal acabasse o sorteio a moeda revertia a favor do Tóino, preparou-se o Caixa de óculos que de todos era o mais novo para atirar a moeda ao ar.»

excerto do conto «A Tourada» de António Góis

Published in: on Fevereiro 17, 2010 at 18:14  Comentários (2)  
Tags: , , ,
Seguir

Get every new post delivered to your Inbox.