Extracto do novo livro de Rui Zink « O amante é sempre o ultimo a saber» a sair em Setembro editado pela Planeta.
(…) Yukio para Bernardo:
“Nadu, lembras-te de algum sonho de quando eras pequeno?”
“Porque me estás a perguntar isso?”
“Os amigos não podem fazer perguntas destas?”
“Acho que sim.”
“Então…”
“Lembro-me de um.”
“Não queres contar, Nadu?”
“Era estranho. Eu devia ter para aí uns cinco ou seis anos.”
“Óptima idade para ter sonhos maus.”
“Desculpa?”
“Nada, Nadu, estava a falar comigo mesmo.”
“Eu…”
“Continua, por favor.”
“Eu brincava no escritório da minha mãe com um carrinho, em cima do tapete. Era como um quadro. O quarto, eu sentado a brincar, com o carrinho.”
“Só isso?”
“E estava muito sereno. Depois, sem pré-aviso, alguém começava a riscar o quadro, com força. Como um enxame negro avançando do canto para o centro do quadro.”
“E como sabias tu isso?”
“Esse é que era o problema. Eu era dois. Eu era o menino a brincar, sem se dar conta do perigo iminente. E eu era também a pessoa que estava de fora, a assistir, sem poder fazer nada, à tragédia anunciada.”
“Tragédia?”
“Porque dentro em pouco o quadro estaria todo riscado. Não haveria mais quarto, apenas um enxame violento, mecânico, que cobriria tudo.”
“Percebo.”
“A minha angústia era essa. Mesmo já com metade do quadro a negro, o enxame ou o lápis a chegarem já aos meus tornozelos, eu continuava a não me dar conta de nada. Impávido e sereno.”
“O horror à tua volta…”
“E eu impávido e sereno.”
(…)



























Uma escrita límpida bonita, quem conhece a escrita do autor, não o encontra neste texto! Autobiográfico,ou uma procura de mudança?
Completamente de acordo consigo Alice. Embora também me incline para o autobiográfico, vou esperar pelas «cenas dos próximos capítulos».